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Guitarra Microtonal: O Universo Fascinante Além dos 12 Tons.

Na música ocidental, o menor intervalo possível entre duas notas é o semitom. Por isso, uma oitava é tradicionalmente dividida em 12 sons distintos. Esse sistema, conhecido como Temperamento Igual, moldou o rock, o jazz, o pop e quase tudo o que ouvimos no rádio.

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Mas e se existissem notas “escondidas” entre as que já conhecemos? É aqui que entra o microtonalismo, conceito que, ao ser aplicado à guitarra, resulta no intrigante instrumento que conhecemos como guitarra microtonal.

Microtonalismo: Uma breve explicação

Podemos imaginar a música ocidental tradicional como uma escada: cada degrau representa um semitom. Você pode subir ou descer os degraus, mas não pode pisar entre eles. O microtonalismo, por outro lado, descarta essa escada e instala uma rampa.

Ele utiliza intervalos menores do que um semitom — os chamados microtons, como os quartos de tom. Em vez de dividir a oitava em 12 partes, sistemas microtonais podem dividi-la em 17, 19, 22 ou até 31 notas diferentes! 

Embora, para ouvidos destreinados, as primeiras notas microtonais possam soar “desafinadas”, trata-se, na verdade, de uma precisão cirúrgica baseada na física e na acústica.

Exemplos práticos no mundo real

O microtonalismo está longe de ser uma novidade:

  • Música Oriental: A música tradicional árabe e a música clássica indiana utilizam microtons há milênios para transmitir nuances emocionais profundas.
  • O Blues: Sabe aquele bend sutil na terça menor que você puxa só um pouquinho para dar expressão? Você está, intuitivamente, tocando um microtom para alcançar a famosa “blue note”.

Como funciona a escala de uma Guitarra Microtonal?

Na guitarra convencional, os trastes são retos e fixados em locais exatos para produzir os 12 semitons padrão. Isso limita o instrumentista, que não consegue tocar uma nota entre duas casas sem recorrer a técnicas como bend, slide ou o uso da alavanca. A guitarra microtonal rompe esse bloqueio ao alterar o próprio braço do instrumento. 

Observe o exemplo a seguir apresentando o braço de uma guitarra microtonal (com divisões além das 12 notas tradicionais) e logo abaixo um braço com as marcações standard :

Existem três formas principais de construir ou adaptar uma guitarra microtonal:

1 – Trastes Adicionais (Custom Fretting): É o modelo mais comum. O braço recebe trastes extras entre as casas tradicionais. O sistema mais famoso é o 24-EDO, que divide a oitava em 24 partes iguais, adicionando um traste no meio de cada casa original para criar os “quartos de tom”. 

2 – Trastes Tortos ou Ajustáveis (True Temperament / Switchboard): Instrumentos onde os trastes parecem ziguezaguear pelo braço para corrigir a afinação física das cordas ou permitir escalas exóticas .

3 – Fretless (Sem Trastes): Como um violoncelo ou um contrabaixo acústico. Sem as barras de metal, o guitarrista tem liberdade total para deslizar por qualquer microtonalidade — embora exija uma precisão milimétrica dos dedos.

Quem está usando a Guitarra Microtonal hoje?

No rock, no metal moderno e em outros estilos, a microtonalidade vem sendo utilizada para expandir as fronteiras sonoras. Entre os nomes de destaque, podemos citar: 

– Angine de Poitrine: o duo canadense que recentemente vem ganhando notório destaque ao explorar as possibilidades microtonais em seus trabalhos. 

– Stu Mackenzie (King Gizzard & The Lizard Wizard): Provavelmente o músico mais conhecido por popularizar a “Guitarra Microtonal” moderna, utilizando instrumentos customizados como a famosa Flying Microtonal Banana

– Tolgahan Çoğulu: Especialista e educador reconhecido por desenvolver guitarras ajustáveis e por seu trabalho acadêmico na difusão da música microtonal. 

– Brendan Byrnes: Referência no nicho do rock/pop microtonal, com composições que exploram sistemas de afinação alternativos. 

– David Fiuczynski: Mestre do jazz experimental que utiliza guitarras fretless ou escalas adaptadas para fundir influências do Oriente Médio com jazz e rock.

Conclusão

Experimentar a guitarra microtonal expande a percepção musical. Ela força o músico a sair dos clichês de digitação e dos formatos de escala decorados, trazendo texturas totalmente novas para composições, solos e arranjos. Seja adicionando alguns trastes extras ou mergulhando em escalas de 22 notas, esse universo prova que a evolução da guitarra está longe de acabar. 

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Boris Gregor

Guitarrista com mais de 30 anos de trajetória e professor de música desde 1998, com passagens por diversas escolas em Curitiba. Bacharel em Engenharia Eletrônica, une a experiência prática dos palcos e bandas ao domínio técnico sobre timbres, componentes e equipamentos.

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